Blog

A Herdeira: Transmitindo estereótipos todos os dias da semana

2018-08-31

À pergunta do que é que estou a fazer sozinha em Lisboa, respondo que, para além de estudar português, faço pesquisa sobre os estereótipos dos ciganos. As respostas que obtenho obrigam-me a ter sempre lápis e caderno à mão. De uma forma assertiva, começam com “que bem que dançam e cantam os ciganos” e terminam com “continuam a ser nómadas, inadaptados sociais, e amantes do alheio”. Depois falam-me sobre “A Herdeira”, uma telenovela com tremendo sucesso em Portugal que tem como protagonista uma “cigana” loira de olhos azuis. Como já poderão ter adivinhado, Luz Fuentes -a protagonista- foi raptada e dada em criança a um cigano. Este é um tropo ligado à literatura ibérica pelo menos desde a publicação de “La Gitanilla” (1613) de Miguel de Cervantes. Luz, apaixona-se por um diplomata e, assim, descobre a sua verdadeira origem; ela é a herdeira da fortuna duma família aristocrata.

Na entrevista a Maria João Mira argumentista da telenovela, ela declara: “o nosso país é muito cosmopolita e multicultural, e nós quisemos refletir isso”, “A ideia de que somos todos iguais é uma mensagem que, hoje, vale a pena passar, num mundo cada vez mais em turbulência e com as pessoas cada vez mais entrincheiradas no medo e a valorizarem as diferenças em vez das semelhanças”.[1]Dito isto, na Herdeira, os loiros e brancos são ricos e poderosos, os negros são motoristas e empregados, os ciganos gostam de dançar e tocar música e são mais escuros do que os brancos (mas menos escuros do que os negros), e os mexicanos são narcotraficantes e de cor chocolate, como os ciganos. Sabem que mais? O cigano mau trafica droga dos mexicanos e a mulher com o bronzeado mais perfeito que eu já vi, esconde o segredo da sua ciganidade.

“A Herdeira” merece ser vista só para percebermos que “ser cigano” não é uma atitude ou uma moda. O que quero dizer é que ser “hippie”, músico viajante, ou ter gostos extravagantes, não te converte num. Sobretudo quando milhares de homens e mulheres têm sido assassinados por falar romanes, ter um fenótipo diferente, ou formar parte dum grupo com um comportamento que se diferencia da norma. Parece-me que os romanies em Portugal, também chamados ciganos, mudaram muito, a maior parte não são nómadas, tem convicções religiosas profundas, a escolaridade dos miúdos está a incrementar-se, existem programas organizados por eles mesmos que incentivam os jovens a continuarem a sua educação superior, e há também um movimento feminista emergente. Quando me dizem que os ciganos devem mudar, respondo que somos nós que devemos mudar a forma como olhamos para eles.

Quando comecei a análise da telenovela tinha vontade de falar dos preconceitos contra os ciganos. Contudo, depois repensei a minha estratégia, por ter percebido que este material dá para várias teses. Só no primeiro episódio, enquanto Luz está a apanhar sol no topo dum reboque (tentando cruzar o México para chegar aos Estados Unidos para tornar o seu sonho realidade em Nova Iorque), presencia a morte dum menino migrante ilegal, que viaja sozinho. Depois, o General Emiliano, futuro presidente do México é mandado assassinar pela sua mulher, durante o casamento da sua filha. Além disso, Luz e o seu “pai” tentam fugir para os Estados Unidos através dum narco-túnel do cartel de Monterrey.[2]

Se não tiverem uma hora diária para apreciar este produto da pós-modernidade, recomendo, ainda assim, o genérico, em que a protagonista e a antagonista parodiam, a ritmo de “despacito”, o vídeo “bailando”, de Gente de Zona e Enrique Iglesias, confluência maravilhosa das imagens mais representativas do “cigano alegre” com icónicas músicas da cultura pop latina.

 

[1]http://selfie.iol.pt/a-herdeira/exclusivo/maria-joao-mira-vai-ser-uma-novela-com-muito-exotismo-sensualidade-e-paixao

[2]https://www.youtube.com/watch?v=eBVnqm7Wq7c

About MarianaS

MarianaSMariana was born in Cholula, Puebla where she spent most of her life. She studied economics, photography, history, and is currently enrolled in the Hispanic and Latin American Literatures and Cultures doctoral program at UT Austin.

MarianaS